MAIS TEXTOS



UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE OS 120 ANOS DA ABOLIÇÃO NOS POEMAS DO CADERNOS NEGROS VOLUME 31

Sergio Ballouk

O livro Cadernos Negros volume 31, dedicado a poemas, por se tratar de obra de coleção ininterrupta desde 1978, foi concebido durante o período de comemoração dos 120 anos da abolição da escravatura.

Esse filtro de análise é fruto de reflexão descompromissada, e desvinculada da escolha dos poemas pelos autores, pois em nenhum momento a edição dos textos foi, ou é, direcionada a partir de tema único.

O princípio que norteia os Cadernos Negros durante todos esses anos pode ser encontrado na carta convite: “Em Cadernos os autores podem expressar os múltiplos aspectos da experiência afro atual (as emoções, os desejos, as alegrias, as tristezas, os ideais, os sorrisos e as lágrimas, as esperanças e as desilusões, a beleza, enfim; nossas ações e contradições)”, possibilitando ao autor manifestação ampla de sua produção literária dentro do espectro da vivência de afro-brasileiro.


Eis o nosso passeio literário em forma de reflexão: os 120 anos da abolição nos poemas dos Cadernos Negros vol. 31.

A tarefa da leitura sob esse viés específico pode ser prazerosa, mas, nem por isso, óbvia. Não é fácil encontrar todos ou alguns dos índices referentes à abolição e suas pré e pós-consequências, como veremos mais adiante.

Cada um dos poemas foi concebido sob experiências múltiplas da vida de cada poeta, ora banhados de romantismo, ora na secura da resposta da vida, ora na esperança... Portanto, antes de iniciarmos este passeio, proponho a leitura do emblemático poema Em Maio, de Oswaldo de Camargo, que seria de fácil identificação da problemática, se não fosse de publicação anterior e também selecionado no livro Melhores Poemas:

EM MAIO

Já não há mais razão para chamar as lembranças
e mostrá-las ao povo
em maio.
Em maio sopram ventos desatados
por mãos de mando, turvam o sentido
do que sonhamos.
Em maio uma tal senhora Liberdade se alvoroça,
e desce às praças das bocas entreabertas
e começa:
"Outrora, nas senzalas, os senhores..."
Mas a Liberdade que desce à praça
nos meados de maio,
pedindo rumores,
É uma senhora esquálida, seca, desvalida
e nada sabe de nossa vida.
A Liberdade que sei é uma menina sem jeito,
vem montada no ombro dos moleques
e se esconde
no peito, em fogo, dos que jamais irão
à praça.
Na praça estão os fracos, os velhos, os decadentes
e seu grito: "Ó bendita Liberdade!"
E ela sorri e se orgulha, de verdade,
do muito que tem feito!
(Oswaldo de Camargo, publicado em Cadernos Negros Melhores Poemas, pág.112 )

Os anos passam, mas e as mudanças? Poema publicado há mais de 20 anos, está mais vivo do que nunca, adequado aos dias atuais, onde dialoga com o feriado de 20 de novembro, em homenagem a Zumbi dos Palmares. Aqui o poeta mostra o triste legado da abolição que aparece na imagem dos que ficaram na praça comemorando o 13 de maio, sob os mandos e os efeitos narcotizantes de uma senhora liberdade anacrônica, desconhecedora da vida da população negra.

Iniciamos, agora de fato, nossa reflexão sobre o CN31, também com um poema direto e incisivo, em que o poeta vira do avesso mitos da harmonia racial e discute a modernização da senzala e os beneficiados com os novos engenhos.

PRIVAÇÕES E PRIVILÉGIOS

Mãe preta, princesa Isabel,
harmonia racial
mitos com validade vencida
treze foi um truque de reciclagem
sair da senzala, cair na favela
impossível influir no futuro
sem rimar cidade com escolaridade

insistimos, nos refizemos afros em movimento
e, na antevéspera do último 13 de maio,
um dos grandes da imprensa branca confessa,
só 3,5% de executivos negros
nas 500 maiores empresas

pra quem há muito mistura
afrodescendência e consciência
novidade nenhuma
décadas, ciclos, séculos
e o Brasil um absurdo funil

século 21 e ainda preferências eurocentradas
e diluídas em oportunidades, anúncios, editoriais,
e-mails e abaixo-assinados
eh, os coronéis daqui são de engenhos multimídia
e seus jagunços-celebridades-negrossocialistas
detestam alternativa afro
com a mesma gana de quem caçava quilombola
ameaçava abolicionista
(Jamu Minka, pág. 70)

Mas a leitura deve aceitar surpresas ao encontrar poema como este pela frente:

PASSADO

depois que as gotas secaram
o chão ficou encerado
de vermelho

hoje todos dançam no salão escorregadio

quando digo que pisam meu sangue
ainda tem gente imaginando que eu minto
mas a verdade é:
invisíveis
as gotas ainda pingam.
(Cuti, pág. 24)

Neste caso, o poeta lança uma linha direta em direção aos sentimentos do leitor atingido por meio de grande impacto visual, jogando-o para um cenário de uma senzala que mais se assemelha a um matadouro com corpos pendurados, desolação e privação de humanidade. Deixa a pergunta: como transitar em terreno escorregadio se a fonte é uma chaga que não cicatriza?
Em outro momento surge o dia seguinte, a pós-abolição, o 14 de maio:

TRISTES TRÓPICOS

depois de escravo
pensei que podia
garantir ao menos
em paz
a comida

o coma veio logo
depois da imensa ferida

desvendar a fera que nos consome e ilude
cravar-lhe os dentes na carne
o que pude

mas ela continua:
bebe sangue
mar
rio
açude
(Cuti, pág. 30)

São poemas que se confundem no tempo, pois se escritos há 120 anos continuariam pertinentes. O poeta avisa sobre o perigo de manter-se “em paz” e qual custo deste ato. O “fingir-se de morto” apenas instiga a fome insaciável da fera.

NEGRO OU ALVO

na mosca
a antítese da obreia:
ser negro
ou ser o alvo
(Luis Carlos de Oliveira “Aseokaynha, pág. 79)

O poeta apresenta o branqueamento como amarras de um frágil corpo à espera lenta e inexorável da devora. Cento e vinte anos não foram suficientes para solucionar o espólio da escravidão pela sociedade. O que acontece é a transferência da responsabilidade a cada criança negra ao nascer e a ordem geral para se manter a harmonia racial: não falar sobre o racismo, pensar e fingir que não vê ou existe. Reflexo disso é a invisibilidade que se transfere ao negro, tratada no poema abaixo:

ENSINAMENTOS

ser invisível quando não se quer ser
é ser mágico nato

não se ensina, não se pratica, mas se aprende
no primeiro dia de aula aprende-se
que é uma ciência exata

o invisível exercita o ser “zero à esquerda”
o invisível não exercita cidadania
as aulas de emprego, casa e comida
são excluídas do currículo da vida

ser invisível quando não se quer ser
é ser um fantasma que não assusta ninguém
quando se é invisível sem querer
ninguém conta até dez
ninguém tapa ou fecha os olhos
a brincadeira agora é outra
os outros brincam de não nos ver

saiba que nos tornamos invisíveis
sem truques, sem mágicas,
ser invisível é uma ciência exata
mas o invisível é visto no mundo financeiro
é visto para apanhar da polícia
é visto na época das eleições
é visto para acertar as contas com o leão
para pagar prestações e mais prestações
é tanto zero à esquerda que o invisível
na levada da vida soma-se
a outros tantos zeros à esquerda
para assim construir-se humano.
(Esmeralda Ribeiro, pág 55)

A presença e respeito aos orixás surge com força e naturalidade em muitos poemas.

OMIN

sou enchente
das águas profundas,
escuras
poço sem fundo
fatal para os desavisados
farta para os que com cuidado
se agacham para pedir:
“sua benção, minha mãe!”
ora rio
yê, yê ô, rio
ora yê yê ô, yalodê
sou por vezes maré de vazante
com vontade de tirar tudo de dentro
os desatentos pensam até que vou secar...
mas é só o sol descer
que volto a encher
enchente, profunda, escura
fatal e farta
sou água
(Mel Adún, pág 91)

A poeta escreve com sentimentos equiparados à força das marés, das vazantes, dos rios, na intenção de alertar os desavisados que não compreender sua origem, sua força interior, sua ancestralidade, pode ser um erro fatal.

Conclusão

Quando pensamos na abolição da escravatura, logo imaginamos um passado distante, de carruagens trafegando em ruas estreitas, com prédios cinzentos e antigos, de gente sisuda, terno de linho branco e chapéus respeitando a moda vigente. Porém, quem consegue imaginar seus antepassados felizes, famílias negras de mãos dadas, com esperanças materializadas em escrituras de terras, se não eram donos de fazendas, de estabelecimentos, donos da liberdade?

Talvez esta lembrança seja somente a minha, ou eu a divida com mais pessoas. Mas em treze de maio de 1888 ocorria um fato histórico em forma de lei, decorrente de pressões econômicas, políticas nacionais e internacionais, inúmeros levantes, insurreições, ataques, quilombos... Criaram ídolos, apagaram símbolos, queimaram arquivos, perseguiram cultos. Mas estamos vivos e ativos.

Em Cadernos Negros vol. 31 a escritora Claudia Walleska, estreante nessa publicação, escreve, na apresentação de seus poemas: “A poesia pode ser um meio de desabafo, desaforo, diversão, desacordo e desconstrução do mundo em que vivemos”. Encerro com o poema “Quilombo, hoje” de Sidney de Paula, que sintetiza as armas modernas: papel e caneta, indispensáveis para um bom combate.

QUILOMBO, HOJE

Hoje sonhei com um Quilombo
Levantei atônito, eufórico
Quase tonto, mas pronto
Pro levante, pro embate

Pra afronta, cobrar a conta
Inspirado pela ancestral fúria
Cheguei ao cume, à cor, à cura
Acalentado pela negra literatura

Hoje acordei num Quilombo
Acordei voraz, despertei feroz
Com vez, vontade e voz
Altivo enegreci a escrita

Cheio de gosto, estou disposto
Com garbo expus meu rosto
Hoje abracei um Quilombo
De letras, poesias, crônicas, contos

Quilombo que pode ser livro
Pode ser lido, ser caderno
Pode ser eu, pode ser eterno
Hoje ginguei e ensaiei um jongo

Libertei-me como um pombo
Alcei voo para um Quilombo
Hoje...
(Sidney de Paula Oliveira, pág 132)

Bibliografia:
Cadernos Negros: os melhores poemas / organizador Quilombhoje SP, 1998
Cadernos Negros, volume 31- poemas afro brasileiros / orgs. Esmeralda Ribeiro e Marcio Barbosa) SP, Quilombhoje , 2008
Carta Convite CN30