19/06/2012

APERTE O PLAY NA POESIA: EXPOSIÇÃO + SARAU LITERÁRIO












 

O coletivo “Literatura Suburbana” mapeou a produção literária nas periferias de São Paulo e registrou em áudio as poesias declamadas pelas vozes dos próprios escritores. O material gravado será distribuído na web, mas quem quiser conhecer esta produção de perto está convidado a participar do sarau de lançamento do áudio-book “Play na Poesia: Vol. 1” que será realizado no dia 21 de julho e contará com a participação dos poetas Michel Yakini, Si Nha, Samanta Bioti, Daniel Minchoni, Akins Kintê, Emerson Alcalde, Jader de Oliveira e outros. Os interessados também poderão entrar em contato com estas produções visitando a exposição “Play Na Poesia”, em exposição até o dia 19 de agosto na Área de Convivência do CCJ. Mais informações: http://playnapoesia.com.br/
Ficha Técnica:
Administrativo e articulação: Anderson Lima
Designer gráfico: Mamuti; Produção: Israel Neto
Co-produção e articulação: Bruno Pastore
Operador de áudio: Iuri Stocco
Exposição: De 23/06 a 19/08, terça a sábado, das 10h às 20h; domingos e feriados, das 10h às 18h. Área de Convivência.
Sarau: Dia 21/07, sábado, das 18h às 21h30. Espaço Sarau. 70 lugares. Retirar ingressos no dia do evento, a partir das 17h, na recepção do CCJ.

13/06/2012

o tambor entre os pares


ESTANTE SUBURBANO CONVICTO : O TAMBOR ENTRE OS PARES...


ENQUANTO O TAMBOR NÃO CHAMA...

Fonte: Quilombhoje




Este livro de poemas lançado no ano passado remete a uma frase atribuída ao escritor Tolstói: “Se queres ser universal, canta a tua aldeia”.

Sempre presente quando se fala de literatura afro-brasileira, a questão da universalidade não reside somente na esfera literária: quantos negros não se sentem solitários, isolados, quando estão num ambiente em que são minoria e não encontram espaço para vivenciar sua individualidade? Quantos não anseiam uma universalidade que significa perder a própria identidade em função dos padrões de identidade veiculados pelos livros consagrados e pelos veículos de grande mídia?

A metáfora do tambor já nos dá pistas: o tambor pode "chamar", pode convocar para uma visita à ancestralidade, mas "bater o tambor" para muitos significa um distanciamento. Esses que se distanciam falam de “bater o tambor” como se falassem de algo já antigo, fora de moda, "primitivo", quando na verdade o que vemos todo dia é uma reafirmação da ancestralidade africana. “Bater o tambor” para alguns já remete a uma oposição cultural: antigo X moderno (África X Ocidente). Uma falsa oposição, já que o tambor convive cada vez mais com a tecnologia. A ancestralidade não exclui a modernidade, assim como a emoção não exclui a reflexão.

Ao cantar a família, o bairro, a cidade, as emoções que afloram no dia a dia, em belos poemas construídos com um lirismo rítmico, Sergio Ballouk nos leva por ruas, avenidas, situações em que qualquer um pode se ver. A ironia e a provocação também fazem parte desse cardápio no qual os poemas residem para despertar o leitor.

Sergio tem o mérito de buscar o que é universal na vivência afro e trazer isso em textos (com conotação biográfica ou não) em que a forma remete ao som dos atabaques:

 
DO ADJÁ CONTRA O AR

a poesia vem da oferta do fim de feira
do nervosismo do choro contido
da panela vazia que cai no chão

a poesia vem da arrebentação das rochas
do coice da mula
do adjá contra o ar

a poesia vem do dedinho torcido
das dores do parto
da marca no couro

a poesia vem do sobrenome do dono
do nascido de nome gritado
do bom filho criado
para o mundo


Livro: Enquanto o Tambor não Chama – Poemas
Autor: Sergio Ballouk
Quilombhoje Literatura
Contato
sergioslv@ig.com.br
www.sergioballouk.blogspot.com

06/06/2012

do blog http://www.pco.org.br/conoticias/ler_materia.php?mat=36368 



Professores Maria Nazareth e Eduardo de Assis

Literatura Negra
“Muito de nossa história ganha sentido novo quando colocado através do olhar das vítimas da pretensa “democracia racial” aqui existente”
Causa Operária entrevista o professor Eduardo de Assis Duarte, coordenador do projeto integrado de pesquisa afrodescendências: raça/etnia na cultura brasileira, responsável pela coleção Literatura e Afrodescendência no Brasil e o literafro – Portal da Literatura Afro-brasileira, sobre o livro, coleção Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica (Ed. UFMG, 2011), organizado por ele

19 de maio de 2012
Causa Operária: Qual a importância da publicação da coleção Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica para o estudo da literatura negra?
Eduardo de Assis: Obra coletiva, a antologia é fruto de 10 anos de trabalho e reúne 61 pesquisadores de diversas universidades, de todas as regiões do país. Traz um conjunto de 100 escritoras e escritores brasileiros afrodescendentes, muitos deles deixados à margem da história de nossa literatura. Cada um é contemplado com um artigo crítico contendo dados biográficos, apresentação geral da obra, informações bibliográficas e fontes de consulta. Ao final, temos os textos escolhidos pelo pesquisador. É um formato voltado para a divulgação e o estudo destes autores, resgatando muitos deles do esquecimento. Esperamos que, a partir de agora, possam estar mais presentes em nossas bibliotecas e salas de aula. 
Causa Operária: Quando e por que surgiu a iniciativa de realizar esse trabalho? 
Eduardo de Assis: Desde os fins dos anos 90, vimos discutindo a necessidade de construir uma antologia crítica que divulgasse e estudasse a produção literária afro-brasileira, devido à grande ausência de materiais pedagógicos a respeito desta vertente de nossas letras. A pesquisa propriamente dita teve início em 2001. 
Causa Operária: O negro escrito, de Oswaldo de Camargo, pode ser considerado uma obra precursora desse estudo? 
Eduardo de Assis: Sem sombra de dúvida, é um livro-guia, um texto fundamental. A obra de Oswaldo de Camargo, como um todo, precisa ser mais bem estudada, pois, além do jornalismo, abrange poesia, ficção e ensaio. E, em todos esses segmentos, temos literatura da mais alta qualidade, marcada por esmerado apuro formal. Já O negro escrito é de grande importância para o estudo desses autores, um trabalho pioneiro e de fôlego. O livro é de 1987 e, antes dele, apenas estudiosos estrangeiros tinham produzido obras densas de conteúdo sobre a questão. E a grande vantagem é que Camargo acrescenta uma preciosa antologia ao final, que abre caminhos para o conhecimento de textos pouco divulgados. Passados 25 anos, é preciso reeditar O negro escrito o quanto antes. 
Causa Operária: Como foi trabalhar com os escritores que participaram da antologia Literatura e afrodescendência no Brasil? 
Eduardo de Assis: Foi um trabalho extremamente gratificante. À medida que íamos conhecendo os autores, fomos vendo o quanto tínhamos para aprender. Nosso repertório de leituras se ampliou largamente ao longo desta década e hoje acredito estarmos bem mais informados. E não só a respeito da escrita afro-brasileira propriamente dita, mas de todo um contexto histórico que exclui o negro da literatura e da cultura erudita como um todo. Além disso, colhemos depoimentos preciosos de autores como Abdias Nascimento, Oswaldo de Camargo, Cuti e Conceição Evaristo, entre outros, transcritos no volume 4 da coleção. E muito de nossa história ganha sentido novo quando colocado através do olhar das vítimas da pretensa “democracia racial” aqui existente. 
Causa Operária: Quais foram as dificuldades encontradas para a realização da pesquisa? 
Eduardo de Assis: Foram inúmeras. Primeiramente, a extensão do material a ser pesquisado, pois começamos com uma lista de 255 nomes. Em seguida, o estabelecimento de critérios de seleção: depois de muito discutirmos, o grupo definiu que deveríamos ter como foco a produção poética e ficcional, o que deixou de fora os ensaístas, por exemplo. Outro critério estabelecido foi o de, num primeiro momento, privilegiar autores com pelo menos um livro individual publicado. Além disso, não foi fácil encontrar os textos de alguns autores já falecidos ou de fora do eixo Rio-São Paulo. E, ainda, a localização de herdeiros detentores de direitos autorais, só para ficarmos nos obstáculos mais difíceis de transpor. 
Causa Operária: Alguns autores tiveram então que ficar de fora? 
Eduardo de Assis: Sim. Ensaístas do porte de Alberto Guerreiro Ramos, Manoel Querino, Clovis Moura, Lélia Gonzalez e muitos mais. E, também, poetas e ficcionistas sem obra individual ou que não desejam assumir ou explicitar a identidade negra ou afro-brasileira para seus escritos. 
Causa Operária: Existem entendimentos diferentes entre a crítica sobre o que venha a ser a literatura negra? Qual a definição mais corrente? 
Eduardo de Assis: Sim. Há inclusive quem defenda a existência de uma literatura negra escrita por brancos... Ou seja, basta o tema e nada mais. Isso abre espaço para toda uma produção a que chamamos “negrismo”, isto é, marcada pelo descompromisso do olhar externo e folclórico, muito comum entre os modernistas, como Raul Bopp ou Jorge de Lima. Na época, a lucidez de Oswald de Andrade alertou para o que chamava de “macumba para turistas”... O negrismo é forte entre nós e tem tradição, remete à Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, em pleno Romantismo e está em vários outros textos. Voltando à questão conceitual, a definição mais corrente é a de uma literatura escrita por pessoas que assumem a condição de negras, explicitam uma visão de mundo oriunda dessa condição e que se voltam para a escrita, seja para valorizar o vasto repertório cultural herdado dos africanos, seja para protestar e denunciar o racismo e a desigualdade ainda vigentes entre nós. Esse perfil militante caracteriza diversos autores, mas não todos, o que aponta para a insuficiência até certo ponto do conceito.  
Causa Operária: E quanto ao conceito de literatura afro-brasileira?
Eduardo de Assis: Para muitos, é sinônimo de literatura negra. E, de fato, ambos os conceitos adotam critérios comuns em sua constituição, como a autoria, o tema, a busca de um público específico, a linguagem empenhada em combater os tabus linguísticos de fundo racista, entre outros. Mas concordo que “literatura afro-brasileira” é um termo mais amplo, pois engloba aqueles autores que, embora assumindo um ponto de vista identificado ao negro e à sua cultura, fogem do texto abertamente militante ou panfletário; e que, às vezes, falam mais do branco do que do negro, a exemplo de Machado de Assis. Autores, enfim, que manifestam sua negrura (ou negrícia) de modo mais sutil. De todo modo, essa é uma discussão em processo, e de importância apenas relativa. O fundamental é constatarmos que a presença do negro na cultura não se limita à música, à dança ou ao esporte – espaços, aliás, onde muitos os querem confinar. Também na literatura há um grande contingente de autores com textos de relevância histórica e bem construídos enquanto obra de arte. 
Causa Operária: Qual a situação da crítica literária atualmente com relação à literatura negra? 
Eduardo de Assis: No passado, salvo algumas exceções, a atitude era de deliberado desconhecimento. E são raros os manuais de história da literatura brasileira que abordam autores como Luiz Gama, Solano Trindade ou Abdias Nascimento. No presente, nota-se um interesse maior, tanto em autores vivos – Nei Lopes, Cuti, Miriam Alves, Joel Rufino dos Santos, Oswaldo de Camargo, Éle Semog, Conceição Evaristo, Paulo Lins, Ana Maria Gonçalves, Salgado Maranhão, Edimilson de Almeida Pereira –, quanto no processo de redescoberta de nomes como os paulistas Lino Guedes (que deixou 13 livros publicados nas décadas de 1930 e 1940) e Paulo Colina, o paraense Bruno de Menezes, o paraibano Arnaldo Xavier, o maranhense Nascimento Moraes, o gaúcho Oliveira Silveira, o mineiro Adão Ventura, e vários outros. 
Causa Operária: Como a literatura negra se relaciona com a literatura brasileira em geral e qual a importância de um segmento especificamente negro em nossas letras? 
Eduardo de Assis: A literatura afro-brasileira jamais deixará de ser brasileira, de ser escrita em português do Brasil (com todas as contribuições vocabulares trazidas pelos africanos e seus descendentes), de utilizar praticamente os mesmos gêneros literários, procedimentos e formas de expressão. É, portanto, um segmento, uma faceta específica de nossa literatura. Mas que reivindica sua autonomia, sobretudo quanto a um ponto de vista identificado com a cultura e com a história de lutas do povo negro. Ponto de vista que se traduz, por exemplo, na desconstrução de estereótipos racistas, via de regra manifestos na linguagem. A vertente afro confere à literatura brasileira uma maior diversidade e variedade de abordagens, seja no enfoque da questão social, seja na linguagem com que toda essa história é traduzida em palavras, pois registra o olhar do Outro, do subalterno que quase nunca pode falar. 
Causa Operária: A literatura negra é ainda vista como um segmento marginal da literatura brasileira? 
Eduardo de Assis: Em alguns salões – e muitas salas de aula – infelizmente ainda sim. Mas a história é, antes de tudo, discurso. Logo, precisa ser reescrita a cada dia. Sou otimista e acredito que, no momento em que o Brasil for uma sociedade multiétnica verdadeiramente democrática em todos os sentidos, então seremos todos respeitados em nossas diferenças e não será necessário especificar este ou aquele segmento para que o mesmo possa ser acolhido como parte de nossa civilização. 
Causa Operária: Qual foi a repercussão desse trabalho quando lançado e, em especial, entre o movimento negro? 
Eduardo de Assis: Houve repercussões variadas, inclusive de um poeta que disse que esse assunto não existe... que falar disto é “preconceito cultural”, e muitas outras bobagens. Mas, na grande maioria dos casos, a antologia foi muito bem recebida, entrou na lista dos 10 livros mais importantes de 2011 do jornal O Globo, e esgotou a primeira edição em apenas dois meses. E também no âmbito do movimento negro tivemos uma recepção altamente favorável. O fato é que o negro sempre falou, escreveu e publicou. E hoje continua a falar, escrever e publicar. Só que boa parte dessa produção careceu (e ainda carece) de uma maior visibilidade. 
Causa Operária: Um dia antes do lançamento desse estudo, Ferreira Gullar publicou um artigo na imprensa onde nega a existência de uma “literatura negra”, fala em literatura simplesmente. Como você encara essa opinião de Gullar? 
Eduardo de Assis: Encaro com naturalidade e com todo respeito à diferença. Ele é um homem de outro tempo, nascido na grande fazenda patriarcal brasileira da primeira metade do século passado. Tem suas convicções. Agora, não deixa de ser frustrante ver alguém que já foi de esquerda falar em “literatura simplesmente”, em “literatura tout court” e termos semelhantes, numa posição formalista e esteticista, numa postura burguesa e eurocêntrica, que seus camaradas de geração chamariam simplesmente de alienada... Enfim, uma postura tradicional e acadêmica no pior sentido da expressão. 
Causa Operária: A opinião de Gullar é uma opinião geral? 
Eduardo de Assis: Não acredito. Talvez seja a opinião da Folha de S. Paulo, onde a crônica dele foi publicada e que não acatou nenhuma das réplicas que para lá foram enviadas. 
Causa Operária: Qual a situação da literatura negra hoje?  
Eduardo de Assis: Considero que é de franco crescimento. Nos últimos anos, saíram pelo menos 10 bons romances, assinados por Joel Rufino dos Santos, Nei Lopes, Francisco Maciel, Paulo Lins, Conceição Evaristo, Oswaldo Faustino, Ana Maria Gonçalves, entre outros. Um defeito de cor, escrito por esta última, ganhou o Prêmio Casa de las Américas de 2006, e Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, vendeu nada menos que 20.000 exemplares no Brasil, além de esgotar a tradução norte-americana. Ainda na ficção, temos a nova edição de A descoberta do frio, de Oswaldo de Camargo, e diversos volumes de contos, de autoras como Miriam Alves, Lia Vieira, a própria Conceição Evaristo, além de jovens como Lande Onawale, Cristiane Sobral, Cidinha da Silva, Ademiro Alves (Sacolinha), Allan da Rosa, e muitos mais. Na poesia, estão em plena atividade Cuti, Edimilson de Almeida Pereira, José Carlos Limeira, Salgado Maranhão, Ronald Augusto, Domício Proença Filho, entre tantos. E ainda toda uma geração que passa por Lívia Natália e Mel Adún, na Bahia; Ana Cruz e Cyana Leahy, no Rio de Janeiro; Waldemar Eusébio e Marcos Dias, em Minas. No campo fértil da literatura infantil e infantojuvenil, a cada dia surgem livros novos de Júlio Emílio Braz, Rogério Andrade Barbosa, Heloisa Pires, Joel Rufino dos Santos, Cidinha da Silva, além de toda uma geração de novos autores e autoras buscando espaço no meio editorial. E segue firme a descentralização da produção, com editoras cujo foco é afro: Pallas, no Rio de Janeiro; Selo Negro, em São Paulo; Mazza e Nandyala, em Belo Horizonte. Para concluir, não custa lembrar que a ONG Quilombhoje, de São Paulo, mas com ramificações em todo o país, mantém uma tradição ininterrupta de publicações coletivas desde 1978 – a série Cadernos Negros – que edita todo ano um volume de prosa ou poesia com média de 20 autores por livro. Em 2011, veio a público o número 34.

02/06/2012

Nei Lopes lança três livros e se firma como um dos maiores artistas e intelectuais do samba

Nei Lopes em Seropédica, onde vive: autor de 700 músicas e 30 livros, ele estará sábado na Festa Literária de Santa Teresa
Foto: Leonardo Aversa / Agência O GLOBO

Nei Lopes em Seropédica, onde vive: autor de 700 músicas e 30 livros, ele estará sábado na Festa Literária de Santa Teresa Leonardo Aversa / Agência O GLOBO
RIO - Nei Lopes diz que o samba é o elemento em comum entre os três livros que lançará no Parque das Ruínas, dentro da Festa Literária de Santa Teresa, a partir das 16h de sábado, quatro dias antes de completar 70 anos. Mas a afirmação beira o óbvio diante do fato de que o autor é um dos maiores nomes do samba, como compositor e como pensador. O que os três livros da editora Pallas reforçam é seu papel como historiador de manifestações e tradições que estão distantes das hegemonias culturais, sociais e geográficas do Rio e do Brasil. Ao ampliar sua obra, que se aproxima dos 30 títulos, Nei se firma como artista e intelectual interessado nos avessos do país.
O romance "A lua triste descamba" tem como universo os primórdios do samba, sobretudo em Madureira, entre os anos 1920 e 40. É a segunda etapa de uma trilogia iniciada com "Mandingas da mulata velha na Cidade Nova" (2009), que se passava na década de 1910. O "Dicionário da hinterlândia carioca" traça um painel do subúrbio, sistematizando as informações que o divertido "Guimbaustrilho e outros mistérios suburbanos" (2001) transmitiu em forma de crônica. E a edição ampliada do "Novo dicionário banto do Brasil" é o mais recente capítulo das pesquisas etimológicas de Nei, sempre voltadas para as línguas africanas.
— Sei que pode parecer afirmação pretensiosa, mas não é, é constatação: Lima Barreto disse que um dia escreveria a história do negro no Brasil, e de certa forma eu já fiz isso; Machado de Assis, no "Memorial de Aires", disse que estava para se escrever a história do subúrbio carioca, e eu já fiz também. Não que tivesse tomado essas coisas como missão. Foram a curtição e a vivência desses ambientes que me levaram a isso. Tenho feito tudo com sentimento — afirma Nei. 
Imagem de ranzinza
Ele se formou advogado em 1966, exercendo a profissão até 1972, quando passou a viver de música. Não fez mestrado e doutorado, tendo construído uma carreira de pesquisador à margem de títulos e elogios acadêmicos. Só recentemente começou a ser respeitado por núcleos de intelectuais que trabalham em áreas próximas às dele.
— A academia é muito corporativista, mas isso está acabando. Ainda mais agora, com a decisão do Supremo — diz, referindo-se ao reconhecimento da constitucionalidade das cotas raciais nas universidades, motivo de óbvio contentamento para ele. — Foi desconstruído todo um edifício de argumentos.
Seus argumentos demoraram a ganhar consistência e só se solidificaram a partir do empurrão de uma tragédia. Nei diz que, na década de 1970, estava preocupado em sobreviver e fazer música. Compôs muitos sucessos, principalmente com Wilson Moreira: "Senhora liberdade", "Goiabada cascão", "Coisa da antiga", "Gostoso veneno", "Gotas de veneno". E combinou arte e militância seguindo Candeia no centro de cultura negra e escola de samba Quilombo. Mas foi em 1981, quando seu filho Brício morreu afogado aos 4 anos, que a grande virada se deu.
— Pensaram: "Esse cara vai desbundar." Mas mudei para melhor. Comecei a estudar mais, escrever, pensar. E, depois, veio a religião para dar o suporte. Tive a oportunidade rara de conhecer em Cuba a vertente da religião afro-americana que embasa tudo, que é o fundamento. Isso me ajudou a superar a perda e a organizar a vida — conta ele, pai de outro filho e avô de dois netos.
Com os estudos, os escritos e os pensamentos veio a imagem pública de ranzinza, polemista em assuntos como racismo, cotas e cultura pop. É uma imagem que não se encaixa nas suas letras de música, quase sempre divertidas, cheias de malandragem, breques, gírias e gafieiras, como "Tempo do Dondon" e "Baile no Elite".
— Construíram para mim uma persona que não é verdadeira. Sou bem-humorado, meu estado de espírito normal é a sátira, a brincadeira, a crônica. Mas tem hora de falar sério também. Quando se consegue falar de coisa séria parecendo que é sacanagem, melhor — diverte-se.
Nei é o caçula de 13 irmãos de uma ampla e tradicional família do Irajá — bairro que homenageou em seu "Samba do Irajá" ("É isso aí! Ê Irajá/ Meu samba é a única coisa que eu posso te dar"). Viveu e ouviu inúmeras histórias suburbanas, do Méier à antiga Zona Rural. Procurou organizá-las no "Dicionário da hinterlândia carioca" — hinterlândia é um termo das ciências sociais para definir áreas geográficas do interior. A Festa da Penha, a Fera da Penha, a Noivinha da Pavuna, os clubes de futebol, as escolas de samba, muita coisa está nos verbetes.
— Acho que o livro pode dar pé por causa do momento atual da cultura carioca, de visibilidade para esse outro lado — aposta.
Nei vive desde 2000 para além do outro lado. Decidiu morar em Seropédica, Baixada Fluminense. A mudança de Vila Isabel, onde diz que era "muito solicitado para farra", para um lugar isolado influiu decisivamente no aumento de sua produção literária ("Brinco que não tenho o que fazer, então escrevo bobagens") e num olhar crítico sobre o Rio.
— Tudo aqui é mais difícil — atesta, num dia de chuva forte e telefone mudo, na varanda de casa. — As carências estabelecem um comparativo. Tenho uma visão melhor da realidade, sem o oba oba do carioca.
Não se espere dele empolgação com o suposto bom momento do samba. Embora ressalte não ter a fórmula para transformar o micro em macro, aponta que "a Lapa não gera o disco que poderia tocar no rádio, estar na TV e criar uma cadeia de produção, como os sertanejos".
— Dizem que o samba tem mídia, mas não tem. Você liga o rádio e praticamente não ouve. Não é dada ao samba a importância que ele merece. O país é extremamente colonizado em termos culturais. As pessoas não percebem como é feia essa dependência. É o cara sempre voltado para o exterior, não olhando para as coisas daqui — toca Nei num ponto em que não consegue coro de muitos artistas. 
Fora das escolas de samba
Do Salgueiro — de onde participou, como componente de ala e depois compositor, entre 1963 e 1989 — e do ambiente das escolas de samba, ele se afastou por vê-las distantes do sentido civilizatório que havia em sua origem, quando punham no centro da cidade (nos sentidos físico e metafórico) expressões e personagens que habitualmente estavam à margem. São essas expressões e esses personagens que ganham destaque em seus livros, como "A lua triste descamba", no qual figuras como Juvenal e Mário de Madureira são colagens de pessoas que realmente existiram.
— Cada núcleo fundador de escola de samba tem sua história a ser contada. Por exemplo: quem foi Claudionor, da Portela? Dizem que foi o maior passista do samba no tempo em que não existia passista. A mitologia e o repertório dessas pessoas vão se perdendo. Para mim, é mais confortável, menos questionável e mais livre tratar disso como ficção — aponta Nei, que retirou o título do romance de um verso de sua tia Zica, lendária portelense.
Ele começa a preparar um livro que abordará esses temas não pelo viés da ficção. Será um "Dicionário histórico e crítico do samba" (nome provisório). E fechará a trilogia ficcional com uma história ambientada nos anos 1950, mais uma vez com negros como protagonistas.
Antes, no entanto, o autor de cerca de 700 composições vai comemorar 70 anos também com samba. Em 27 de maio, autografa os três novos livros numa festa musical no Candongueiro, em Niterói. A gravadora Fina Flor lançará até julho "Samba de fundamento", seleção feita por ele de faixas de seus dois últimos CDs, "Partido ao cubo" e "Chutando o balde". E, se o projeto tiver os recursos necessários, gravará um disco com a orquestra paulistana Heartbreakers, de Guga Stroeter, cantando sucessos do chamado pagode de fundo de quintal (Almir Guineto, Jorge Aragão, Luiz Carlos da Vila etc.) em roupagem de gala.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/nei-lopes-lanca-tres-livros-se-firma-como-um-dos-maiores-artistas-intelectuais-do-samba-4791816#ixzz1uK1FglW3
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