29/12/2011

22/12/2011

Recordações de 2011




Amigos,

Hoje não tenho muito a dizer. O ano está acabando, e vem o necessário balanço, a retrospectiva individual. Não foram poucas as vezes que regado à cerveja ou vinho, escrevia os acontecimentos, pautando ora em forma de poesia, ora outro beirando pra prosa. Esquecendo e editando situações ao vento enganador da memória. Porém,  sempre com a certeza de que a vida se faz de momentos e experiências, nosso dever é aprender quando um momento torna-se experiência. O ensinamento da vida. Coisas da minha avó. No final, encerrava o texto agradecendo o contínuo pulsar da existência e novas oportunidades de acertar. E claro, agradecia os erros, cobranças, má querência, isso não dá, não pode, etc, afinal, são indicadores de caminhos. Respeito. Portanto, AGRADEÇO, enormemente a Deus, meus orixás, amigos, novos e antigos, família parte integrante e indissociável do meu trabalho e minha vida. AGRADEÇO. Faço essa retrospectiva  agradecimento, sempre, e já me retiro deste espaço com retorno para fevereiro, depois de Iemanjá, lá pras bandas do dia 14, aniversário da passagem de Carolina de Jesus. Simbora.

O cartaz



Céu Água Azul - Contos Afros

O Lançamento - Casa das Rosas :Cosme, Marco, Liah, Mafalda, Helton, Susi e Ballouk
Encontro escritores Biblioteca Àlvares de Azevedo
lançamento Sarau Elo da Corrente- Samantha e Raquel declamando: "Àfrica, futuro mais que perfeito"

Bate Papo livro Cadernos Negros 32- Quilombaque
Lançamento Pávio da Cultura - Sacolinha, Ballouk e Adilson
Lançamento Sarau da Brasa Chelmi, Vagner, Raquel, Douglas, Samantha, Divino

Dia das Crianças - Sarau Elo da Corrente

Lançamento Sarau Suburbano Convicto

 Semana da Pedagogia - Unipalmares

Trofeu Raça Negra - Éis o meu prêmio!

20 de Novembro- Palestra literatura Afro-brasileira- Unipalmares


Diálogos Poéticos- Casa das Rosas - Pezão e amigo

Primeiro Sarau de Caieiras -Décio e família Ballouk

Bate papo Literatura Afro-brasileira - Feira Preta - Afroeducação
Exposição Vem Poeta - Sesc Santo Amaro ( Poema a vontade de todos)








21/12/2011

Palestra: Clássicos da Literatura Afro-brasileira

Sergio Ballouk e Irene Izilda da Silva
Aconteceu dia 17/12 na Sala de Reflexão da Feira Preta: Os Clássicos da Literatura Afro-Brasileira, bate papo dirigido por este que escreve e Irene Izilda da Silva. Confesso que já compartilho da presença da amiga, nos dias de encontro do Quilomboletras. Este convite partiu da Afroeducação e, descontraidamente, dialogamos com o público sobre este tema tão necessário e atual. Foram momentos de reflexão, onde a biografia dos escritores e suas obras se entrelaçam grandiosamente. Valeu Cintia e Paola da Afroeducação. Simbora!
Paola Prandini - Afroeducação




19/12/2011

VEM POETA - SESC SANTO AMARO - ( A vontade de todos - Sergio Ballouk))

Dica de SESC- Quem estiver pelos lados do Sesc Santo Amaro, vá conferir a exposição Vem Poeta, até 30/12, poemas com curadoria de Sergio Vaz e Projeto Visual de Valéria Marchesoni. As poesias escorrem pelas paredes das escadas, degraus, conduzem com poesias o belo Sesc Santo Amaro. (no labirinto do Minotauro tem palavras  para orientar o olhar.) Vale a pena.  Participo com o poema A Vontade de Todos. São muitas poesias, tirei algumas fotos para degustação visual. Simbora.
Sergio Ballouk







Sergio Vaz


Sergio Vaz

Giovani Mendes

Hugo Paz

16/12/2011

Os clássicos da literatura de origem afro-brasileira na Feira Preta 2011

Amigos, vou mandar uma mensagem pra quem gosta de gente bonita.  A Feira Preta desse ano será imperdível: Criolo, Mano Brown, Lino Crizz, livros de literatura afro-brasileira, samba, muita coisa boa. E falando em coisa boa. Pois é, essa é pra fechar o ano... A convite da AfroeducAÇÃO, vou participar com a Irene Izilda da Silva de uma roda de conversa sob o tema: "Os clássicos da literatura de origem afro-brasileira". Responsa na humildade. Então convoco a sua participação, venha contribuir com essa discussão. Logo depois, no mesmo espaço, será o lançamento do Cadernos Negros 34. Percebeu que é imperdível. Simbora! 
 
Serviço: 
"Os clássicos da literatura de origem afro-brasileira"
Espaço Reflexão
Dentro da Feira Preta 17/12 - sábado
horário: 15:30 às 16:30
 




15/12/2011

CADERNOS NEGROS 34 NA FEIRA PRETA


LANÇAMENTO DO CADERNOS NEGROS VOLUME 34 –
CONTOS AFRO-BRASILEIROS

NA FEIRA PRETA



(Divulgação Quilombhoje) "Em primeiro lugar, mojubá pra você que acompanha, valoriza e apoia o trabalho do Quilombhoje, você que acha importante a literatura afro e mostra isso não só por palavras, mas também em suas ações. Seu axé faz com que sigamos adiante.

Mojubá também para aqueles que não acompanham, não acham importante, acham que essa coisa de literatura negra é bobagem, que o caminho não é por aí.

Respeitamos todas as opiniões, mas é lógico que não compactuamos com algumas e sabemos que em algum momento o texto seduzirá mesmo aqueles mais resistentes.

Afinal, nossa literatura fala de coisas que estão caladas no dia a dia, mas que todos sentem.

E como todo ano acontece, neste ano também lançaremos um volume de Cadernos Negros.

Este é de contos e tem 21 autores. É o volume 34.

A vida é mudança e neste ano o lançamento será um pouco diferente. Será dentro da Feira Preta, ecento que também ocorre anualmente e que leva agrega pessoas interessadas na produção artesanal, cultural e artística da população afro, e que ocorre sábado e domingo.


Serviço:
17 de dezembro, sábado, às 17h.
lançamento do Cadernos Negros 34
Centro de Exposições Imigrantes, 



CADERNOS NEGROS VOLUME 34 – CONTOS
Autores e textos:

Ademiro Alves (Sacolinha)
Adversário Íntimo

Adilson Augusto
Na Ponta da Língua

Claudia Walleska
África-Brasil

Conceição Evaristo
Lumbiá
Ei, Ardoca

Cristiane Sobral
O Tapete Voador

Cuti
Que Horas São?

Débora Garcia
O Anjo

Denise Lima
Baobás

Elizandra Souza
Antes que as Águas da Cabaça Sequem

Esmeralda Ribeiro
A Moça

Fátima Trinchão
A Bênção, meu Pai

Fausto Antônio
O Escuro das Palavras

Guellwaar Adún
A Solidão de Soledade

Henrique Cunha Jr.
Operação Limpa

Jairo Pinto
Armandinho, RG Desconhecido

Luís Carlos ‘Aseokaýnha’
A Grama

Mel Adún
Menininha

Míghian Danae
Família

Miriam Alves
O Velório

Onildo Aguiar
Tambores do Filho do Homem

Thyko de Souza
Nasce uma Lenda"

12/12/2011

NEGRAFIAS 03- 16/12 - Bar Paiol






(divulgação)  Chamação para o lançamento da
antologia Negrafias – Literatura e Identidade vol. 3

O Convite é irresistível: Lançamento da antologia Negrafias – Literatura e Identidade vol. 3. São vinte autor@s, que se debruçam sobre o pálido papel, com liberdade criativa, formando um mosaico de gênero, alcançando outra forma de contar nossa história. Como descrito na orelha do livro “Negrafias é chama de fogueira justiceira que queima o pau apodrecido e alumia o pensamento. É lâmina de obé amolado que rasga o pálido conforto da consciência incolor de mocinhos e mocinhas. É água de chuva, daquelas que purifica a vida e rega colheita. É livro que contém histórias e personagens imateriais, porém de uma realidade tão porosa que será difícil não ser, de algum modo, cúmplice. É um prazer servir na sua mesa um cardápio literário repleto de negros contos, poesias e ousadias”(...).
O local do lançamento será no recomendável Bar Paiol, do nosso amigo Bru, que se localiza na Rua Inácio Pereira Rocha, n. 273 no bairro de Pinheiros Ficaremos muito contentes com a presença de tod@s vocês para que possamos celebrar mais essa conquista e trocar positivas energias!

O valor arrecadado com a venda deste livro será destinado para a construção de um espaço comunitário na Comunidade de Terreiro Ilê Axé de Yansã, no município de Araras/SP.

Autores participantes:
Organização: Marciano Ventura
André Luis Patrício (SP), Andrio Candido (SP), Damazze Lima (SP), Elis Regina Feitosa do Vale (SP), Fau Ferreira (BA), Fernanda Rodrigues Miranda (SP), Geranilde Costa e Silva (CE), Hamilton Borges Walê (BA), Janaína Santana (SP), Jociara Keila (SP), Juliana Queiroz (SP), Marcelo Mafra (SP), Marciano Ventura (SP), Marcio Folha (SP), Nina Silva (RJ), Paulo Cigano (SP), Pollyanne Carlos da Silva (PE), Priscila Preta (SP), Sirlene Santos (SP), Sueide Kintê (BA).

Programação
Mestre de Cerimonia: Rubão O Iluminado
Grupo Raizarte – O malandro e a dançarina
Dança para Oxum - Coletivo Esperança Garcia com participação de Giovani di Ganzá
DJ Edmilson, o Dj Diferenciado 
Pocket show com Felipe Augusto - Quilombrasa
Sarau de Poesia
   Mercado Preto: Omosholá Artes Africanizadas , cds, artesanatos.
   Atrações surprezas!!!


Ciclo Contínuo de Literaturas
Coordenação Geral/Editorial: Marciano Ventura

Coordenação de Produção: Valéria Alves de Souza

Coordenação Pedagógica: Sylvia Sabrina Santander

Projeto Gráfico e capa: Denis A. Figueiredo

Ilustração da Capa: Conde (in memoriam)

Revisão: Fernanda Rodrigues de Miranda

Colaboradores: Marcio Custódio de Oliveira, Elis R. do Vale Feitosa, Samuel Galvase, Rubens Barbosa Leal

Apoio: Ilê Axé de Yansã e Bar Paiol

Patrocínio
Programa VAI/Prefeitura de São Paulo




08/12/2011

Resposta de CUTI para Ferreira Gullar -



Outro dia comentava feliz que não precisava mais explicar a legitimidade da literatura afro-brasileira, era página virada, conceito aceito. Ponto. Pois é. Éis que Narciso larga o espelho e tal parafuso perdido de engenhoca escravagista, vem a público, jabutizadamente, questionar o que está nas ruas, nos saraus, nas bocas, nos livros, tema de pós, mestrados, doutorados...
Uns dizem, não acredito, logo ele, pô! Outros, já esperava dele mesmo!
Mas se ele pediu, e com jeito, educação européia de sinhô, acho que vou acatar, parar de pensar, escrever, ler, declamar por aí... Fica a pergunta: E como impedir as outras centenas quando se atreverem a segurar uma caneta e deixar escorrer um pouco de escrevivência? Tapinha na mão com receituário do Poema Sujo?

Em tempo1 - Escrevivência é neologismo de Conceição Evaristo, vá brigar com ela.

Em tempo2 – Hoje tem Sarau Elo da Corrente com o lançamento do livro Mulher
Mat®iz de Miriam Alves. Não era pra falar, xi. Perdão. Fui mal!

Resumo:   EM TIME QUE ESTÁ GANHANDO NÃO SE MEXE!

"por Cuti enviado para o Portal Geledés"

Desdobramento texto de Ferreira Gullar  - Preconceito Cultural. "Cruz e Souza e Machado de Assis foram herdeiros de tendências européias: não se pode afirmar que faziam literatura negra..." - Folha de São Paulo (Ilustrada) de 03/12/2011.
Por conta da publicação, em quatro volumes, da Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica, organizada pelos professores Eduardo de Assis Duarte e Maria Nazareth Fonseca, seja pela apresentação gráfica sofisticada da obra, seja pelo seu aporte crítico envolvendo profissionais de diversas universidades brasileiras e estrangeiras, a questão de ser ou não ser negra a vertente da literatura brasileira que compõe seu conteúdo tem trazido à tona manifestações que vão desde respeitosas e aprofundadas abordagens até esdrúxulos pitacos de quem demonstra sua completa ignorância do assunto, má vontade e racismo crônico. Neste último caso está o que publicou Ferreira Gullar, com o título "Preconceito cultural", no caderno Folha Ilustrada, do jornal Folha de São Paulo, de 04/12/2011.
O autor do Poema Sujo, no qual compara um urubu a um negro de fraque, deve estar estranhando (estranheza é a palavra que ele emprega) que o negro não é uma simples idéia desprezível, mas um imenso número de pessoas, cuja maior parte, hoje, não come carniça, e que aqueles ainda submetidos à miséria mais miserável jamais quiseram fazer o trabalho daquela ave, e que se a "a vasta maioria dos escravos nem se quer aprendia a ler", como diz ele, não é porque não queria. Era proibida. Há vários dispositivos legais e normas que comprovam isso. Havia uma vontade contrária. Há e sempre houve um querer coletivo negro de revolta contra a opressão racista.
Quanto a existir ou não literatura negro-brasileira, deixemos de hipocrisia. No mundo da cultura só existe o que uma vontade coletiva, ou mesmo individual, diz que sim e consegue vencer aqueles que dizem não. Foi assim com a própria literatura brasileira e os tantos ismos que por aqui deixaram seus rastros. Características, traços estilísticos, vocabulário etc, que demarcam a possibilidade de se rotular um corpus literário, no tocante à produção literária negra, já vem sendo estudados. Basta lembrar três antologias de ensaios: Poéticas afro-brasileiras, de 2002, com 259 páginas;
A mente afro-brasileira (em três idiomas), de 2007, com 577 páginas; Um tigre na floresta dos signos, de 2010, com 748 páginas, além de outras reuniões de textos, estudos, dissertações e teses. Por outro lado, se Cruz e Sousa e Machado de Assis, como argumenta Gullar "foram herdeiros de tendências literárias européias", e, portanto, "não se pode afirmar que faziam literatura negra", o que dizer de Lépold Senghor e Aimé Césaire, principais criadores do Movimento da Negritude, embora herdeiros da tradição literária francesa? A literatura não é só resultado de si mesma. Só uma perspectiva genética tacanha desconheceria outras influências do texto literário, tais como a experiência existencial do autor, sua formação política e ideológica, o contexto social, entre tantas mais. Nenhum escritor é obrigado a reproduzir suas influências.
A maneira como o tal poeta cita o samba, a dança, o carnaval, o futebol é aquela que simplesmente aponta o "lugar do negro" que o branco racista determinou, um lugar que serviu de "contribuição" para que os brancos ganhassem dinheiro, não só produzindo sua arte a partir do aprendizado com os negros, mas também explorando compositores diretamente e calando-os na sua autoafirmação étnica. Basta inventariar quantos grandes compositores negros morreram na miséria. A essa realidade o poeta chama de: "nossa civilização mestiça". Mas, pelo visto, a literatura, sendo a menina dos olhos da cultura, deve ser defendida da invasão dos negros. O escritor e crítico Afrânio Peixoto, lá no passado, deixou a expressão bombástica sobre a literatura ser "o sorriso da sociedade". Gullar não pensa isso, com certeza, mas em seus pobres argumentos está a ruminar que a literatura não pode ser negra. Talvez sinta que a negrura pode sujá-la, postura bem ainda dentro do diapasão modernista que abordou o negro pelo viés da folclorização.
A esquerda caolha e daltônica brasileira sempre se negou a encarar o racismo existente em nosso país. Por isso andou e anda de braços e abraços com a direita mais reacionária quando se trata de enfrentar o assunto. Para ela, a mesma ilusão dos eugenistas, tipo Monteiro Lobato, se apresenta como verdade: o negro vai (e deve) desaparecer no processo de miscigenação. Para alguns cristinhos ressuscitados dos porões da ditadura militar e seus seguidores sobreviveria e sobreviverá apenas o operariado branco. Concebem isso completamente esquecidos de que a cor da pele e traços fenotípicos estão inseridos do mundo simbólico, o mundo da cultura. No seu inconsciente, o embranquecimento era líquido e certo, solução de um "problema". Hoje, é provável que os menos estúpidos já tenham se deparado com as estatísticas e ficado perplexos. Gullar, pelos seus argumentos, se coloca como um representante da encarquilhada maneira de encarar o Brasil sem a participação crítica do negro. E, como é de praxe, entre os encastelados no cânone literário brasileiro, incluindo os críticos, não ler e não gostar é a regra. Em se tratando de produção do povo negro, empinam e entortam ainda mais o nariz. Devem se sentir humilhados só de pensar em ler o que um negro brasileiro escreveu e, no fundo, um terrível medo de verem denunciado o seu analfabetismo relativo a um grave problema nacional: o racismo, ou serem levados a cuspir no túmulo de seus avós.
Gullar  diz ser "tolice ou má-fé" se pensar um grande público afrodescendente como respaldo da produção literária negra. Será que ele algum dia teve em seu horizonte de expectativa o leitor negro? Certamente não, como a maioria dos escritores brancos. Isso, sim, é tolice, má-fé e, cá entre nós, uma sutil forma de genocídio cultural, próxima daquela obsessão de se matar personagens negros. E não adianta nesse quesito invocar um parente mulato como, em outros termos, fez o imbecil parlamentar racista Bulsonaro.
Antonio Cândido, em entrevista publicada na revista Ethnos Brasil, em março de 2002, com o título "Racismo: crime ontológico", fazendo sua autocrítica relativa à sua omissão, por muito tempo, do debate sobre a questão racial, argumenta que o "nó do problema" estaria "no aspecto ontológico", e prosseguindo: "está no drama, para o negro, de ter de aceitar uma outra identidade, renegando a sua para ser incorporado ao grupo branco." Façamos um acréscimo ao que disse o consagrado mestre. A questão racial é um problema ontológico no Brasil porque diz respeito também ao ser branco, pois o debate sobre o problema enfrenta a ilusão da superioridade congênita do branco, que o racismo insiste em manter cristalizada na produção intelectual brasileira. Ele, o branco, tem o drama de ser forçado a aceitar uma outra identidade que não aquela de superioridade congênita que o racismo lhe assegurou, de ser obrigado pelo debate a experimentar a perda da empáfia da branquitude, descer do salto alto. Aliás, o sociólogo Guerreiro Ramos nos legou um ensaio elucidativo do assunto, intitulado "A patologia social do branco brasileiro".
A produção intelectual não é tão somente uma exclusividade de brancos racistas, apesar de certa hegemonia ainda presente. Além de brancos conscientes da história do país, negros escrevem, publicam livros e falam não só de si, mas também dos brancos, dos mestiços e de todos os demais brasileiros. Quem não leu e não gostou dessa produção, em especial a do campo literário, já não está fazendo tanta diferença. A crítica binária,baseada no Bem X Mal, está enfraquecida. Um dos propósitos de seus defensores quando pensam negros escrevendo é o de tirar o entusiasmo dos filhos e dos netos daqueles que por muitos séculos lhes serviram a mesa e lhes limparam o chão e mesmo daqueles que ainda o fazem. A vontade coletiva negra está em expansão e não é só no campo literário. Assim, quando o poeta Ferreira Gullar diz que falar em literatura negra não tem cabimento, é de ser fazer a célebre pergunta: "Não tem cabimento para quem, cara-pálida?" A sua descrença no que chama de "descriminação" na literatura, crendo que ela não "vá muito longe" e gera "confusão" é o simples reflexo da baixa expectativa de êxito que a maioria dos brancos tem em relação aos negros, resultado dos preconceitos inconfessáveis, passados de geração para geração, para minar qualquer ímpeto de autodeterminação da população negra.
Para Aristóteles havia os gregos e o resto (os bárbaros). O branco brasileiro precisa superar este complexo helênico de pensar que no Brasil há os brancos e o resto (mestiços e negros). Tal postura é uma das responsáveis pelo descompasso da classe dirigente em face da real população. Certamente, essa é a razão de Lima Barreto, o maior crítico do bovarismo brasileiro, ainda ser muito pouco ensinado em nossas escolas. O daltonismo de Ferreira Gullar, advindo de um tempo de utopia socialista, hoje é pura cegueira. Traços físicos que caracterizam historicamente os negros não são
só traços físicos, como quer o articulista, mas representações simbólicas, por isso perfeitamente suscetíveis de gerar literatura com especificidades. Se o poeta não concebe negros possuidores de consciência crítica no país e as históricas particularidades de sua gente, devia fazer a sua autocrítica e não insistir na cegueira. Não dá mais para negar que a classe C está disputando também assentos no vôo literário, além dos bancos de universidades, nos shoppings e outros espaços sociais. E a população negra também faz parte dela. Quem não quiser enxergar vai continuar vivendo embriagado por esta cachaça genuinamente brasileira, produzida nos engenhos decadentes: o mito da democracia racial. Pena que alguns, de tão viciados, não largam a garrafa.
Luiz Silva (Cuti), escritor, doutor em literatura brasileira.