23/08/2011

Geni Guimarães - Leite de Peito





Sábado passado, 20/08, estive no 21º encontro do Quilomboletras – Clube Negro de Leitores, participando da discussão do livro Leite de Peito, de Geni Guimarães. Foi, como sempre, uma riquíssima troca de conhecimentos, novas leituras, amizades, compartilhamento de sonhos e passados. Antes, eu escrevi o texto abaixo, mais na tentativa de sintetizar o meu colostro de idéias,  minhas primeiras impressões. Mas o produto deste encontro, a saborosa troca de emoções que o livro propicia, foi dividida prontamente entre os participantes.  Até o próximo encontro.




LEITE DE PEITO  - Geni Guimarães

A literatura negra que busco, consumo e produzo é feita, basicamente, de sonhos, sangue e lembranças. Desejo de futuro alterado após o expurgar de minha bile, arrastando nesse escoar lembranças abaixo. Outro dia, conversando com o Cuti, falávamos sobre um escritor que acabara de lançar o seu livro e dizia que nem tudo lhe era possível ser escrito, ainda persistiam muitas chagas abertas. E é verdade. Geni Guimarães, em seu Leite de Peito trata de cutucar a gigante “casquinha de ferida”, partes removidas, outras expostas para secar sob efeito dosol e do tempo. Tão meticulosamente, que muitas das minhas, ainda grudadas em minha carne, porém não cicatrizadas, encontram-se em meio aos seus vestígios durante o procedimento, quase cirúrgico. Assim, foi a leitura, traçado da meninice a vida adulta da protagonista.
Costumam discutir se a obra é fruto de pura ficção ou vivência pessoal. Terreno movediço onde escritores costumeiramente negam, muitos com veemência, suas experiências em seus livros. A escritora escrevendo sempre na primeira pessoa identifica a protagonista pelo seu próprio nome: Geni, irmã da Cema, e por aí vai. Tomou partido. E já não importa mais se os outros nomes são verdadeiros ou não, o nome da escritora chancela veracidade para os personagens/família do livro.
 Neste livro de contos-novela, percebe-se a construção atenta na qualidade literária, com o controle seguro de suas lembranças alçadas a melhor literatura. Não permitiu demarcação nenhuma que prendesse seu texto aos olhares inquisidores de quem não esconde a lagoa de água pura que se mergulha a mão em busca de sentimentos e histórias. Assim trabalha com a verossimilhança dos personagens, lugares, família, vivências, deixando sempre um convite para conhecermos esse aconchego do interior, seus erros e acertos, similaridades à experiência de cada um de nós.